sábado, 26 de março de 2011

A preguiça, o medo e o otimismo.


Somos seres humanos, logo somos cheios de "defeitos de fabricação". Disso quase ninguém duvida. Está programado no nosso DNA, fruto de anos e anos de evolução e seleção natural. Por isso, somos capazes de fazer coisas boas e ruins ao mesmo tempo. Ironicamente, é esse mix de defeitos e qualidades que nos torna únicos e molda a nossa humanidade, fazendo com que  sejamos, por exemplo, mesquinhos e solidários, egoístas e amorosos, medrosos e companheiros,  invejosos e prestativos, e por aí vai...

É óbvio gostamos de nossos amigos e familiares exatamente da forma como são, com todo o conjunto de imperfeições e qualidades que possuem e é por isso que perdoamos os seus pequenos  "desvios de comportamento" (ok, ok, sei que às vezes não são tão pequenos assim). Entretanto, quando o assunto é trabalho, as coisas precisam ser diferentes. Acredito que para alcançar a excelência, um profissional (e não apenas de software) precisa monitorar 3 vícios de comportamento; são eles: a preguiça, o medo e o otimismo.

A Preguiça

Qual ferramenta devemos usar sempre? Java ou .Net? Linux ou Windows? Que padrão podemos utilizar em todos os projetos? Vamos trabalhar de forma ágil ou tradicional? A equipe irá trabalhar com SCRUM ou com o guia PMBOK embaixo do braço? Essas (e outras) questões são corriqueiras nas rodas de profissionais. Na verdade, é a manifestação da já famosa "preguiça mental". Nosso cérebro (preguiçoso) insiste na procura da "bala de prata", ou seja, uma maneira única e universal capaz de solucionar todos os problemas.

A explicação é simples: se encontramos uma maneira única para tratar todas as situações liberamos tempo e energia para outras tarefas mais interessantes, seja no trabalho ou fora dele. É por causa desse vício de comportamento que muitas soluções são descartadas de imediato, simplesmente por estarem "fora do padrão" ou por não respeitarem uma regra qualquer que deveria ser seguida à risca, não importando o contexto da situação no momento.

Monitore esse mau hábito constantemente. Saiba que geralmente há mais de uma solução para solucionar um mesmo problema. Estude diversos padrões, tecnologias e métodos. Posso ser fã de DDD mas isso não significa que irei utilizar a técnica em todos os projetos que terei que tocar ao longo da carreira. O mesmo acontece com o universo das metodologias: podemos trabalhar com métodos ágeis e aplicar outras metodologias ao mesmo tempo, obtendo assim resultados muito melhores e adaptados à realidade do negócio em que estamos inseridos. Preste atenção ao contexto, isso é o mais importante. Explore a diversidade.


O Medo

"Agile não presta, é só um modismo da garotada". "PMBOK só serve para aumentar a burocracia no projeto". "Vai usar .Net? Tá maluco!" Essas e outras pérolas são ouvidas diretamente no trabalho, na faculdade, nos fóruns e em outros eventos comuns de TI. É simplesmente o medo falando mais alto. A ciência já sabe: nós dominamos (e populamos) nosso planeta porque somos uma espécie medrosa. Por exemplo, se um antepassado das cavernas visse uma sombra remotamente parecida com um tigre ele não pensaria duas vezes: "daria no pé", mesmo que fosse apenas um coelho inofensivo. Qualquer eclipsezinho solar e todo mundo já se reunia chorando para pedir perdão pelo "fim do mundo" próximo.

Não se engane: esse instinto do "lute ou fuja" está em você, somos descendentes diretos desses medrosos que se multiplicaram aos montes porque são avessos a riscos já de berço.

Esse medo pode ser resumido em uma única palavra: ignorância. Temos medo daquilo que não conhecemos; achamos mais fácil repudiar qualquer fato novo potencialmente ameaçador (lembra do tigre?) do que analisar e estudar com calma a novidade que se apresenta. Lute contra isso! Não diga que métodos ágeis são ruins sem estudar sobre o assunto. Não critique o PMBOK sem entender o contexto e a proposta do PMI. Não acredite que ferramentas e tecnologias possam mandar nas pessoas, a ponto de determinar a qualidade de um design de software. O antídoto para enfrentar o medo é o conhecimento. Acostume-se a pensar "fora da caixa".

O Otimismo

Procuro levar a vida com leveza, otimismo e bom humor. Quem me conhece sabe. Porém, ser otimista demais em projetos de desenvolvimento é arriscado. Sistemas são complexos e imprevisíveis, pequenas mudanças geralmente ocasionam consequências impossíveis de serem previstas em plenitude. Prazos se perdem facilmente se a equipe não olhar de perto problemas e obstáculos.  Programas se tornam incompiláveis se não houver preocupação constante com merges e commits. A "lei de Murphy" é a regra, não a exceção em projetos. Por isso, uma atitude mais defensiva é sempre desejável.

Acredite, o seu componente de software não irá funcionar só porque você deseja que funcione. Os riscos não irão deixá-lo em paz só porque você está fazendo "pensamento positivo" ou pensando que "o universo conspira a seu favor". O Cosmos não se interessa pelo seu projeto; é melhor deixar essas coisas de lado e se preparar para evitar que coisas ruins aconteçam de forma racional e isenta. É preciso ter um plano para se preparar para os obstáculos que invariavelmente invadem todos os projetos de sistemas.



Conclusão: vigie sua preguiça, controle seu medo e não seja demasiadamente otimista. Assim, irá se tornar um profissional muito mais produtivo, inteligente, flexível, inovador e responsável.

Tenho certeza que você irá se surpreender com os resultados.

Até a próxima!



4 comentários:

  1. Vini,

    Excelente Artigo!
    Conseguimos identificar estes três vícios em momentos críticos. Ao identificar um problema alguns mostram "Medo" da possível solução a ser implantada, pois pode obter sucesso ou não. Em outras pessoas identificamos a "Preguiça" perguntando milhões de coisas para não ter que resolver o problema. Por fim, encontramos outro grupo muitíssimo "Otimista" de sua solução, lembrando que é uma POSSÍVEL solução para o problema apresentado.
    Com este artigo posso dizer: Ter medo de arriscar é saudável, mas não podemos deixar de arriscar. Devemos entrar de cabeça nas soluções, propondo a melhor e lembrar que um modelo repetitivo será ultrapassado. É importante ressaltar que nem sempre o modelo proposto será o melhor, por isso devemos está preparados para, sempre, propor inovação.

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  2. Fala velho!

    Obrigado! Avaliar os riscos sempre é bom, só não podemos é deixar de fazer as coisas por medo ou preguiça.

    "Audaces Fortuna Juvat" (a sorte ajuda os audaciosos).

    Abs,

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